A lei de destruição no espiritismo: o que a doutrina responde sobre morte, guerra e tragédias

A lei de destruição é uma das dez leis morais que Allan Kardec organizou na terceira parte de O Livro dos Espíritos. Ela ocupa o capítulo VI dessa parte, das questões 728 a 765, e responde a algumas das perguntas mais duras que alguém pode fazer: por que existe destruição na natureza, por que acontecem tragédias coletivas, o que a doutrina pensa da guerra, do assassínio e da pena de morte.

A Guatambu Travel organiza caravanas espíritas saindo de Porto Alegre para o Triângulo Mineiro, e essas perguntas aparecem no ônibus, na fila do Memorial, na conversa de fim de noite. Este texto reúne o que a obra responde, com a questão de cada resposta, para quem quiser conferir por conta própria. Descrevemos o que a doutrina afirma, sem tentar provar nem negar nada.

O que é a lei de destruição?

É a lei natural que trata do fim das formas, e não do fim dos seres. A primeira questão do capítulo pergunta se a destruição é lei da natureza, e a resposta define o resto: “Preciso é que tudo se destrua para renascer e se regenerar. Porque, o que chamais destruição não passa de uma transformação, que tem por fim a renovação e melhoria dos seres vivos.” (O Livro dos Espíritos, questão 728)

Na mesma questão, a obra separa o que se destrói do que não se destrói. O corpo é chamado de invólucro, e a parte que permanece é outra: “Esse invólucro é simples acessório e não a parte essencial do ser pensante. A parte essencial é o princípio inteligente, que não se pode destruir e se elabora nas metamorfoses diversas por que passa.” (O Livro dos Espíritos, questão 728)

É por isso que, para a doutrina espírita, falar de destruição nunca é falar de aniquilamento.

Por que a natureza destrói e conserva ao mesmo tempo?

Porque as duas coisas se equilibram. A obra pergunta justamente por que a natureza cerca os seres de meios de preservação se a destruição é necessária, e responde: “A fim de que a destruição não se dê antes de tempo. Toda destruição antecipada obsta ao desenvolvimento do princípio inteligente.” (O Livro dos Espíritos, questão 729)

Sobre a convivência dos dois mecanismos, a resposta é curta: “É o remédio ao lado do mal. Já dissemos: para manter o equilíbrio e servir de contrapeso.” (O Livro dos Espíritos, questão 731)

A obra também afirma que essa necessidade não é fixa. Ela diminui conforme o ser progride: “Essa necessidade se enfraquece no homem, à medida que o Espírito sobrepuja a matéria. Assim é que, como podeis observar, o horror à destruição cresce com o desenvolvimento intelectual e moral.” (O Livro dos Espíritos, questão 733)

Existe destruição legítima e destruição abusiva?

Sim, e a fronteira é a necessidade. A obra reconhece o direito de destruir para se alimentar e se defender, e o limita na mesma frase: “Tal direito se acha regulado pela necessidade que ele tem de prover ao seu sustento e à sua segurança. O abuso jamais constituiu direito.” (O Livro dos Espíritos, questão 734)

Perguntada sobre a destruição por prazer, a caça sem utilidade, a resposta é direta: “Toda destruição que excede os limites da necessidade é uma violação da Lei de Deus.” (O Livro dos Espíritos, questão 735)

O que o espiritismo diz sobre as mortes coletivas e as grandes tragédias?

Esta é a seção que a obra chama de flagelos destruidores, e é a que mais se procura depois de um desastre. A pergunta é feita sem rodeios, e a resposta também: “Para fazê-la progredir mais depressa.” (O Livro dos Espíritos, questão 737)

A obra argumenta que o julgamento humano sobre esses acontecimentos é limitado pelo ponto de vista de quem sofre: “Somente do vosso ponto de vista pessoal os apreciais; daí vem que os qualificais de flagelos, por efeito do prejuízo que vos causam.” (O Livro dos Espíritos, questão 737)

E afirma que parte dessas tragédias não é fatalidade, mas descuido humano: “Muitos flagelos resultam da imprevidência do homem. À medida que adquire conhecimentos e experiência, ele os vai podendo conjurar, isto é, prevenir, se lhes sabe pesquisar as causas.” (O Livro dos Espíritos, questão 741)

Há ainda um segundo sentido atribuído ao flagelo, que é o de prova moral coletiva: “Os flagelos são provas que dão ao homem ocasião de exercitar a sua inteligência, de demonstrar sua paciência e resignação ante a vontade de Deus e que lhe oferecem ensejo de manifestar seus sentimentos de abnegação, de desinteresse e de amor ao próximo, se o não domina o egoísmo.” (O Livro dos Espíritos, questão 740)

Se a tragédia atinge bons e maus, onde está a justiça?

A objeção está escrita na própria obra, feita por Kardec, e não é evitada. A resposta desloca a medida do tempo: “Um século no vosso mundo não passa de um relâmpago na eternidade. Logo, nada são os sofrimentos de alguns dias ou de alguns meses, de que tanto vos queixais.” (O Livro dos Espíritos, questão 738)

Antes disso, a mesma questão responde por que os meios brandos não bastariam: “Pode e os emprega todos os dias, pois que deu a cada um os meios de progredir pelo conhecimento do bem e do mal. O homem, porém, não se aproveita desses meios.” (O Livro dos Espíritos, questão 738)

É um trecho que costuma dividir opiniões, inclusive entre espíritas, e vale lê-lo inteiro na fonte antes de formar juízo.

O que a doutrina espírita diz sobre a guerra?

Trata a guerra como sintoma de atraso moral, não como destino. Sobre a causa: “Predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões.” (O Livro dos Espíritos, questão 742)

Sobre o fim dela: “Sim, quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a Lei de Deus. Nessa época, todos os povos serão irmãos.” (O Livro dos Espíritos, questão 743)

E sobre quem provoca guerra por interesse próprio, a responsabilidade é individual e nominal: “Grande culpado é esse e muitas existências lhe serão necessárias para expiar todos os assassínios de que haja sido causa, porquanto responderá por todos os homens cuja morte tenha causado para satisfazer à sua ambição.” (O Livro dos Espíritos, questão 745)

Assassínio, legítima defesa e intenção

A obra classifica o assassínio como crime grave e explica por quê, em termos da própria doutrina: “Grande crime, pois que aquele que tira a vida ao seu semelhante corta o fio de uma existência de expiação ou de missão.” (O Livro dos Espíritos, questão 746)

Mas recusa a ideia de culpa idêntica em todos os casos: “Já o temos dito: Deus é justo, julga mais pela intenção do que pelo fato.” (O Livro dos Espíritos, questão 747)

Sobre a legítima defesa, a escusa existe e é estreita: “Só a necessidade o pode escusar mas, desde que o agredido possa preservar sua vida, sem atentar contra a de seu agressor, deve fazê-lo.” (O Livro dos Espíritos, questão 748)

Crueldade é o mesmo que instinto de destruição?

Não. A obra distingue os dois com clareza, e é uma das passagens mais citadas do capítulo: “É o instinto de destruição no que tem de pior, porquanto, se, algumas vezes, a destruição constitui uma necessidade, com a crueldade jamais se dá o mesmo.” (O Livro dos Espíritos, questão 752)

Perguntada se o cruel simplesmente não tem senso moral, a resposta corrige a pergunta: “Dize — da falta de desenvolvimento do senso moral; não digas da carência, porquanto o senso moral existe, como princípio, em todos os homens.” (O Livro dos Espíritos, questão 754)

E o duelo?

O capítulo dedica uma seção ao duelo, que era assunto vivo na França do século XIX. A obra não o reconhece como defesa: “Não; é um assassínio e um costume absurdo, digno dos bárbaros.” (O Livro dos Espíritos, questão 757)

Sobre o ponto de honra que o justificava, a resposta tem cinco palavras: “Orgulho e vaidade: dupla chaga da Humanidade.” (O Livro dos Espíritos, questão 759)

O que o espiritismo diz sobre a pena de morte?

Que ela vai desaparecer, e que o desaparecimento será um sinal de progresso: “Incontestavelmente desaparecerá e a sua supressão assinalará um progresso da Humanidade.” (O Livro dos Espíritos, questão 760)

Ao argumento de que a sociedade precisa se defender do criminoso perigoso, a obra responde apontando outra saída: “Há outros meios de ele se preservar do perigo, que não matando. Ademais, é preciso abrir e não fechar ao criminoso a porta do arrependimento.” (O Livro dos Espíritos, questão 761)

E há um trecho de leitura incômoda sobre como cada época acha natural a sua própria violência: “Assim é que o que pareceu justo, numa época, parece bárbaro em outra. Só as Leis divinas são eternas; as humanas mudam com o progresso e continuarão a mudar, até que tenham sido postas de acordo com aquelas.” (O Livro dos Espíritos, questão 763)

O capítulo termina com a pena de morte aplicada em nome de Deus, e a resposta é a mais severa da seção: “É tomar o homem o lugar de Deus na distribuição da justiça.” (O Livro dos Espíritos, questão 765)

Onde ler a lei de destruição por conta própria

O capítulo inteiro está em O Livro dos Espíritos, terceira parte, capítulo VI, questões 728 a 765, dividido em sete seções: destruição necessária e destruição abusiva, flagelos destruidores, guerras, assassínio, crueldade, duelo e pena de morte.

A Federação Espírita Brasileira publica as obras básicas de Allan Kardec em PDF, com acesso gratuito, na área de downloads do site. A edição usada neste texto é a da FEB, com tradução de Guillon Ribeiro. Quem preferir o papel encontra a obra em qualquer livraria espírita e nas livrarias dos centros que a caravana visita em Uberaba, Sacramento e Araxá.

Uma observação útil para quem for conferir: O Livro dos Espíritos teve duas edições, a de 1857 e a definitiva, e a numeração das questões só corresponde à segunda, com 1.019 questões. Se o número que você procurar não bater, provavelmente a edição é outra.

Por que quem estuda esta lei acaba querendo ir a Uberaba?

A lei de destruição é o capítulo que trata das perdas coletivas, e é o que mais leva gente a procurar consolo em livro psicografado. Não por acaso, é também o assunto que mais aparece nas conversas dentro do ônibus da caravana a Uberaba. A Guatambu Travel opera essa saída de Porto Alegre, e o roteiro está na landing da caravana espírita.

E se o grupo já existe, o caminho é outro. Centro espírita, grupo de estudo ou família grande que quer levar a própria gente não precisa comprar assento avulso: a Guatambu Travel intermedia a locação do ônibus com transportadoras parceiras, sem frota própria, e monta o roteiro para aquele grupo fechado. Como isso funciona, o que a lei exige da transportadora e como conferir a empresa está em fretamento de ônibus para grupos. Quem organiza viagem em outro estado e precisa de apoio no Rio Grande do Sul encontra o equivalente em receptivo para grupos.

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Este texto faz parte de uma série sobre as dez leis morais do espiritismo, publicada pela Guatambu Travel.

Fontes

Todas as citações deste texto foram conferidas questão por questão contra a edição indicada acima.