A lei de adoração no espiritismo: o que é orar, para que serve e o que a doutrina critica

A lei de adoração é a segunda das dez leis morais do espiritismo. Ela ocupa o capítulo II da terceira parte de O Livro dos Espíritos, das questões 649 a 673, e trata de um assunto que costuma surpreender quem chega à doutrina: o que a obra diz sobre culto exterior, sobre rezar muito sem mudar de conduta e sobre a vida dedicada só à contemplação.

A Guatambu Travel organiza caravanas espíritas saindo de Porto Alegre para o Triângulo Mineiro, e esta é a lei que mais aparece na dúvida de quem vem de outra religião e pergunta se vai encontrar rito, altar ou obrigação de rezar. Aqui descrevemos o que a doutrina afirma, com a questão de cada citação para quem quiser conferir.

O que é adoração para o espiritismo?

A definição é curta e não menciona templo nem cerimônia: “Na elevação do pensamento a Deus. Deste, pela adoração, aproxima o homem sua alma.” (O Livro dos Espíritos, questão 649)

A obra sustenta que o sentimento não é ensinado, e sim nativo: “Sentimento inato, como o da existência de Deus. A consciência da sua fraqueza leva o homem a curvar-se diante daquele que o pode proteger.” (O Livro dos Espíritos, questão 650)

E por isso o classifica como parte da lei natural: “A adoração está na lei natural, pois resulta de um sentimento inato no homem. Por essa razão é que existe entre todos os povos, se bem que sob formas diferentes.” (O Livro dos Espíritos, questão 652)

O espiritismo é contra o culto exterior?

Não é contra, mas condiciona. Sobre a necessidade de manifestação exterior, a resposta começa pelo interior: “A adoração verdadeira é do coração. Em todas as vossas ações, lembrai-vos sempre de que o Senhor tem sobre vós o seu olhar.” (O Livro dos Espíritos, questão 653)

Perguntada se a adoração exterior é útil, a obra responde que sim, com uma ressalva: “Sim, se não consistir num vão simulacro. É sempre útil dar um bom exemplo, mas os que somente por afetação e amor-próprio o fazem, desmentindo com o proceder a aparente piedade, mau exemplo dão e não imaginam o mal que causam.” (O Livro dos Espíritos, questão 653)

A comparação seguinte é a que costuma ser mais citada, porque coloca a conduta acima do rito: “Deus prefere os que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, aos que julgam honrá-lo com cerimônias que os não tornam melhores para com os seus semelhantes.” (O Livro dos Espíritos, questão 654)

Na mesma questão, a obra recusa a ideia de que exista uma forma privilegiada: “Todos os homens são irmãos e filhos de Deus. Ele atrai a si todos os que lhe obedecem às leis, qualquer que seja a forma sob que as exprimam.” (O Livro dos Espíritos, questão 654)

E quem acompanha uma religião em que não crê, por respeito à família?

A obra separa por intenção, e a resposta é mais generosa do que se espera: “Não procede mal aquele que, assim fazendo, só tenha em vista respeitar as crenças de outrem. Procede melhor do que um que as ridiculize, porque, então, falta à caridade.” (O Livro dos Espíritos, questão 655)

A censura recai sobre outro caso: “Aquele, porém, que a pratique por interesse e por ambição se torna desprezível aos olhos de Deus e dos homens.” (O Livro dos Espíritos, questão 655)

É o ponto que mais responde a quem viaja numa caravana espírita vindo do catolicismo, e que tratamos em o que é uma caravana espírita.

Vale mais orar sozinho ou em grupo?

A obra reconhece a força do conjunto sem desvalorizar a prece individual: “Reunidos pela comunhão dos pensamentos e dos sentimentos, mais força têm os homens para atrair a si os bons Espíritos. O mesmo se dá quando se reúnem para adorar a Deus.” (O Livro dos Espíritos, questão 656)

E completa: “Não creiais, todavia, que menos valiosa seja a adoração particular, pois que cada um pode adorar a Deus pensando nele.” (O Livro dos Espíritos, questão 656)

O que o espiritismo diz da vida contemplativa?

Este é um dos pontos em que a doutrina se afasta de tradições monásticas. Perguntada se tem mérito quem se dedica só à contemplação, a resposta é negativa: “Não, porquanto, se é certo que não fazem o mal, também o é que não fazem o bem e são inúteis. Ademais, não fazer o bem já é um mal.” (O Livro dos Espíritos, questão 657)

A razão vem em seguida: “Deus quer que o homem pense nele, mas não quer que só nele pense, pois que lhe impôs deveres a cumprir na Terra.” (O Livro dos Espíritos, questão 657)

Essa exigência de utilidade prática é o que amarra esta lei à lei do trabalho e à lei de justiça, amor e caridade.

Orar muito adianta?

A obra responde que a quantidade não é o critério: “O essencial não é orar muito, mas orar bem.” (O Livro dos Espíritos, questão 660)

E explica por que há pessoas que oram bastante e seguem de mau caráter: “Essas pessoas supõem que todo o mérito está na longura da prece e fecham os olhos para os seus próprios defeitos. Fazem da prece uma ocupação, um emprego do tempo, nunca, porém, um estudo de si mesmas.” (O Livro dos Espíritos, questão 660)

Sobre pedir perdão sem mudar nada, a resposta é direta: “Aquele que a Deus pede perdão de suas faltas só o obtém mudando de proceder. As boas ações são a melhor prece, por isso que os atos valem mais que as palavras.” (O Livro dos Espíritos, questão 661)

A obra também define o que a prece é, em três verbos: “A prece é um ato de adoração. Orar a Deus é pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em comunicação com Ele. A três coisas podemos propor-nos por meio da prece: louvar, pedir, agradecer.” (O Livro dos Espíritos, questão 659)

A prece muda o que vai acontecer?

Não da forma que se costuma imaginar. Sobre mudar o curso das provas, a obra responde que algumas precisam ser vividas até o fim, e situa o efeito da prece em outro lugar: “A prece traz para junto de vós os bons Espíritos e, dando-vos estes a força de suportá-las corajosamente, menos rudes elas vos parecem.” (O Livro dos Espíritos, questão 663)

E acrescenta um limite claro: “Ademais, não é possível que Deus mude a ordem da natureza ao sabor de cada um” (O Livro dos Espíritos, questão 663).

Sobre orar pelos que já partiram, a obra afirma que o alívio existe, mas sem alterar a justiça divina: “A prece não pode ter por efeito mudar os desígnios de Deus, mas a alma por quem se ora experimenta alívio, porque recebe assim um testemunho do interesse que inspira àquele que por ela pede” (O Livro dos Espíritos, questão 664).

O que a doutrina diz sobre sacrifícios e guerras religiosas

O capítulo fecha tratando de práticas antigas. Sobre sacrifícios humanos oferecidos com intenção religiosa, a resposta não abre exceção: “Não, nunca. Deus, porém, julga pela intenção.” (O Livro dos Espíritos, questão 670)

Sobre as chamadas guerras santas, a obra é igualmente categórica: “São impelidos pelos maus Espíritos e, fazendo a guerra aos seus semelhantes, contravêm à vontade de Deus, que manda ame cada um o seu irmão, como a si mesmo.” (O Livro dos Espíritos, questão 671)

E, na mesma resposta, um argumento que vale como síntese da lei de adoração inteira: “Todas as religiões, ou, antes, todos os povos adoram um mesmo Deus, qualquer que seja o nome que lhe deem.” (O Livro dos Espíritos, questão 671)

Perguntada sobre oferendas, a obra devolve o critério prático: “O melhor meio de honrá-lo consiste em minorar os sofrimentos dos pobres e dos aflitos.” (O Livro dos Espíritos, questão 673)

Onde ler esta lei por conta própria

O capítulo inteiro está em O Livro dos Espíritos, terceira parte, capítulo II, questões 649 a 673, dividido em quatro seções: adoração exterior, vida contemplativa, a prece e politeísmo.

O tema da prece é retomado e ampliado em O Evangelho segundo o Espiritismo, que traz uma coletânea de preces espíritas na última parte. As duas obras estão disponíveis em PDF, com acesso gratuito, na área de downloads da Federação Espírita Brasileira.

Onde se vê a adoração sem culto exterior de que fala o capítulo?

O capítulo distingue a adoração do culto exterior, e essa diferença fica concreta numa reunião de centro espírita, que não tem altar nem rito. A caravana espírita da Guatambu Travel inclui visita a casas espíritas em Minas Gerais, saindo de Porto Alegre. O roteiro está na landing da caravana espírita.

E se o grupo já existe, o caminho é outro. Centro espírita, grupo de estudo ou família grande que quer levar a própria gente não precisa comprar assento avulso: a Guatambu Travel intermedia a locação do ônibus com transportadoras parceiras, sem frota própria, e monta o roteiro para aquele grupo fechado. Como isso funciona, o que a lei exige da transportadora e como conferir a empresa está em fretamento de ônibus para grupos. Quem organiza viagem em outro estado e precisa de apoio no Rio Grande do Sul encontra o equivalente em receptivo para grupos.

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Este texto faz parte de uma série sobre as dez leis morais do espiritismo, publicada pela Guatambu Travel.

Fontes

Todas as citações deste texto foram conferidas questão por questão contra a edição indicada acima.