A lei de conservação no espiritismo: o necessário, o supérfluo e o que a doutrina pensa do sacrifício

A lei de conservação é a quinta das dez leis morais do espiritismo. Ela ocupa o capítulo V da terceira parte de O Livro dos Espíritos, das questões 702 a 727, e é o capítulo que trata de comida, dinheiro, bem-estar, excesso e jejum. Também é onde a doutrina diz, com todas as letras, o que pensa das mortificações voluntárias.

A Guatambu Travel organiza caravanas espíritas saindo de Porto Alegre para o Triângulo Mineiro. Aqui descrevemos o que a doutrina afirma, com a questão de cada citação para quem quiser conferir.

O que é a lei de conservação?

É o instinto de continuar vivo, que a obra atribui a todos os seres: “Sem dúvida. Todos os seres vivos o possuem, qualquer que seja o grau de sua inteligência. Nuns é puramente maquinal, raciocinado em outros.” (O Livro dos Espíritos, questão 702)

A finalidade que a obra atribui a esse instinto é o aperfeiçoamento, não a simples sobrevivência: “Acresce que a vida é necessária ao aperfeiçoamento dos seres. Eles o sentem instintivamente, sem disso se aperceberem.” (O Livro dos Espíritos, questão 703)

O espiritismo condena procurar bem-estar?

Não. A resposta separa desejo de abuso: “É natural o desejo do bem-estar. Deus só proíbe o abuso, por ser contrário à conservação.” (O Livro dos Espíritos, questão 719)

E coloca duas condições, uma para fora e outra para dentro: “Ele não condena a procura do bem-estar, desde que não seja conseguido à custa de outrem e não venha a diminuir-vos nem as forças físicas, nem as forças morais.” (O Livro dos Espíritos, questão 719)

A obrigação de cuidar do corpo é derivada do trabalho: “Sim, porque, sem força e saúde, impossível é o trabalho.” (O Livro dos Espíritos, questão 718) É a ligação direta com a lei do trabalho.

Onde termina o necessário e começa o supérfluo?

A obra não dá um número, e diz por quê. Sobre como reconhecer o limite: “Aquele que é ponderado o conhece por intuição. Muitos só chegam a conhecê-lo por experiência e à sua própria custa.” (O Livro dos Espíritos, questão 715)

Sobre a Terra não produzir o bastante, a resposta responsabiliza o uso, não a escassez: “A Terra produziria sempre o necessário, se com o necessário soubesse o homem contentar-se. Se o que ela produz não lhe basta a todas as necessidades, é que ele emprega no supérfluo o que poderia ser aplicado no necessário.” (O Livro dos Espíritos, questão 705)

E há uma sentença curta sobre o que é útil: “Essa a razão por que faz que a Terra produza de modo a proporcionar o necessário aos que a habitam, visto que só o necessário é útil. O supérfluo nunca o é.” (O Livro dos Espíritos, questão 704)

Sobre quem acumula em prejuízo de quem não tem o básico, a resposta é curta e severa: “Olvidam a Lei de Deus e terão que responder pelas privações que houverem causado aos outros.” (O Livro dos Espíritos, questão 717)

O mesmo tema aparece pelo lado do direito de propriedade na lei de justiça, amor e caridade.

Por que o prazer existe, segundo a doutrina?

A obra dá duas finalidades ao atrativo dos bens materiais: “Para instigar o homem ao cumprimento da sua missão e para experimentá-lo por meio da tentação.” (O Livro dos Espíritos, questão 712)

E explica o propósito da tentação em cinco palavras: “Desenvolver-lhe a razão, que deve preservá-lo dos excessos.” (O Livro dos Espíritos, questão 712)

Sobre o excesso, a avaliação é dura e sem moralismo religioso, apoiada na consequência física: “Pobre criatura! mais digna é de lástima que de inveja, pois bem perto está da morte!” (O Livro dos Espíritos, questão 714)

A obra afirma ainda que a natureza traçou limites: “Traçou, para vos indicar o limite do necessário; mas, pelos vossos excessos, chegais à saciedade e vos punis a vós mesmos.” (O Livro dos Espíritos, questão 713)

O espiritismo manda jejuar ou fazer penitência?

Não, e é um dos trechos mais citados do capítulo. Sobre privações voluntárias como expiação, a primeira resposta desvia para outro lugar: “Fazei o bem aos vossos semelhantes e mais mérito tereis.” (O Livro dos Espíritos, questão 720)

Há privação que a obra considera meritória, mas com critério: “Há: a privação dos gozos inúteis, porque desprende da matéria o homem e lhe eleva a alma.” (O Livro dos Espíritos, questão 720) E o teste prático, na mesma resposta: “é o homem tirar do que lhe é necessário para dar aos que carecem do bastante. Se a privação não passar de simulacro, será uma irrisão.” (O Livro dos Espíritos, questão 720)

Sobre a vida de mortificações ascéticas, a obra propõe uma pergunta de utilidade antes de julgar: “Procurai saber a quem ela aproveita e tereis a resposta. Se somente serve para quem a pratica e o impede de fazer o bem, é egoísmo, seja qual for o pretexto com que entendam de colori-la.” (O Livro dos Espíritos, questão 721)

E define o que aceita como mortificação verdadeira: “Privar-se a si mesmo e trabalhar para os outros, tal a verdadeira mortificação, segundo a caridade cristã.” (O Livro dos Espíritos, questão 721)

Sobre o sofrimento autoinfligido, a resposta é ainda mais explícita: “Os sofrimentos naturais são os únicos que elevam, porque vêm de Deus. Os sofrimentos voluntários de nada servem, quando não concorrem para o bem de outrem.” (O Livro dos Espíritos, questão 726)

E a orientação que fecha o capítulo troca o alvo: “Fustigai o vosso espírito e não o vosso corpo, mortificai o vosso orgulho, sufocai o vosso egoísmo” (O Livro dos Espíritos, questão 727).

Existe alimentação proibida no espiritismo?

Não há prescrição alimentar na doutrina. Sobre abstenções religiosas de certos alimentos, a obra explica a origem histórica sem endossá-la: “Permitido é ao homem alimentar-se de tudo o que lhe não prejudique a saúde. Alguns legisladores, porém, com um fim útil, entenderam de interdizer o uso de certos alimentos e, para maior autoridade imprimirem às suas leis, apresentaram-nas como emanadas de Deus.” (O Livro dos Espíritos, questão 722)

Sobre alimentação animal, a resposta se apoia na constituição física e na obrigação de manter a saúde: “A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, que mantenha suas forças e sua saúde, para cumprir a lei do trabalho. Ele, pois, tem que se alimentar conforme o reclame a sua organização.” (O Livro dos Espíritos, questão 723)

Abster-se pode ter mérito, com a mesma condição de sempre: “Sim, se praticar essa privação em benefício dos outros.” (O Livro dos Espíritos, questão 724)

E quem passa fome de verdade?

O capítulo trata da privação extrema em duas questões. Sobre quem não tem saída pela própria inteligência: “Seu mérito então consiste em submeter-se à vontade de Deus, desde que a sua inteligência nenhum meio lhe faculta de sair da dificuldade.” (O Livro dos Espíritos, questão 708)

E, sobre sacrificar outra pessoa para sobreviver, não há atenuante: “Em tal caso, há homicídio e crime de lesa-natureza, falta que é duplamente punida.” (O Livro dos Espíritos, questão 709) É o ponto em que esta lei toca a lei de destruição.

Sobre a falta de meios em meio à abundância, a obra aponta duas causas: “Ao egoísmo dos homens, que nem sempre fazem o que lhes cumpre. Depois e as mais das vezes, devem-no a si mesmos.” (O Livro dos Espíritos, questão 707)

Onde ler esta lei por conta própria

O capítulo inteiro está em O Livro dos Espíritos, terceira parte, capítulo V, questões 702 a 727, dividido em quatro seções: instinto de conservação, meios de conservação, gozo dos bens terrenos e privações voluntárias.

A obra está disponível em PDF, com acesso gratuito, na área de downloads da Federação Espírita Brasileira.

O que esta lei tem a ver com uma viagem de grupo?

O capítulo trata do direito de viver e do que é necessário para viver, e é um dos que mais provocam discussão quando se lê em grupo. A caravana espírita da Guatambu Travel, saindo de Porto Alegre, tem justamente esse formato: leitura, visita e conversa. O roteiro está na landing da caravana espírita.

E se o grupo já existe, o caminho é outro. Centro espírita, grupo de estudo ou família grande que quer levar a própria gente não precisa comprar assento avulso: a Guatambu Travel intermedia a locação do ônibus com transportadoras parceiras, sem frota própria, e monta o roteiro para aquele grupo fechado. Como isso funciona, o que a lei exige da transportadora e como conferir a empresa está em fretamento de ônibus para grupos. Quem organiza viagem em outro estado e precisa de apoio no Rio Grande do Sul encontra o equivalente em receptivo para grupos.

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Este texto faz parte de uma série sobre as dez leis morais do espiritismo, publicada pela Guatambu Travel.

Fontes

Todas as citações deste texto foram conferidas questão por questão contra a edição indicada acima.